Régis Fernando Camargo SantosRégis Fernando Camargo Santos
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No colo do meio dia

Escrito a partir de uma entrevista de Clarice Lispector sobre um homem baleado onze vezes pela polícia. Narrado por Jordana Löw e Régis Santos.

Recomendação: dê o play e leia com a música ao fundo — Hania Rani — Glass

No colo do meio diaNo remanso duro e gélido da solidãoQue nos acompanha vagandoGuiado à cabrestoExposto no afresco que ainda cheira tinta ruby com netunoAquele homemOu o pouco que dele hábriga sem a esperança verdadeira de ganharNesses parcos segundos de cólera e engasgue,Tosse e confusãoDos olhos, dos pensamentos névoaPercebe o inaceitávelNum breve atestado sem assinaturaO impetuoso fardoÉ ele...Agora mais pesadoNos tiros quentes que ouvi longe,e não pude contarQue agorase misturam à sua carne e ossosComo em abraçoÚltimas letras da sua história encurtadaE sou euComo foi ClariceEntãoEu o desenho na tela dos olhos fechadosNum realismo cruMais fiel do que pode a realidadeMais que perfeito do que os k's das fotografiasAquele acontecimentoAs toneladas das minhas impressõesMinha carga de sentimentos aleatórios,Descrentes, assustadosEsmurrando-se, flutuandoTrocando de lugarMinhas insujeitaveis lágrimasMinhas lástimasAgoniasO desgostoPor essa injustiça corpuscular, massivae ao mesmo tempo…Imperceptívelmínima..Ordinária..Mas nem com issoNem meio pontoNem vacânciaNem faltaInsignificanteNão nos contaNão se comoveÀ reações, pedidos, justificativas, provas, ou notasOu euQue não sou capaz...de entenderTamanha incompreensão e apatia dos jugos do destinoPor quem à eles é mero ordenadosem opções...Sem forças…Sem voz…Sem se…Sem não…Sem por favor não…Sem volta…Sem misericórdiaOu mínima penaQue penaOu pena…OuPena...Ou será que não?Por favor…Por favor não